quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Marcia Tiburi e seu blog

Escrito em:5/9/2007
Sobre blog e ESSAPOAÉBOA
Esta é a estréia dos meus escritos na forma-blog. Eu nunca quis ter um blog porque não tinha estilo para isso. E não sei se terei, mas vamos lá. Mesmo um blog requer estilo. Mesmo que o estilo seja a falta dele. Só porque o blog não entrou no cânone do que chamamos “gênero literário” não é para achar coisa pouca ou menor. Cá estou eu, portanto, em busca do estilo blog.Pensei em começar falando nisso porque justificar a própria aparição sempre é bom diante do desfile de qualquer coisa que aparece nos blogs (o que não faria os blogs diferentes de muitos livros...). A crise ecológica chegou a fazer parte das justificativas que apresentei a mim mesma para aceitar esta aventura: melhor escrever no instantâneo, no efêmero da forma, sem esperar nenhum grande resultado.Ao mesmo tempo me dei conta que o blog serve para se escrever sobre o que acontece hoje. Fiquei eu pensando se tinha qualquer coisa a dizer hoje. Me dei conta que o blog não serve para literatura do jeito que eu me acostumei, ou seja, uma busca interminável pelas dobras intermináveis do que existe e não existe e que se pode dizer por escrito. Mas serve para crônica, poesia (não combina, mas serve), serve para falar algo que possa ser partilhado na rapidez do nosso tempo. Serve para dizer qualquer coisa que, relevante ou não, depende do olhar de cada um e pode ser expresso. Mas foi pensando nestas coisas que me surgiu a idéia que eu mesma julguei mais interessante: o escritor de blog é, ele mesmo, um anti-escritor. Disso eu realmente gostei. Apologia do efêmero? Acho que é o nome da coisa. Aqui, portanto, eu vou tentar “desescrever”. Qual o objetivo disso? Nenhum, além de descobrir no que vai dar como num experimento de laboratório ainda não descrito.Contarei também algumas experiências que, penso, devem ser compartilhadas porque me parecem relevantes.
Escrito em:5/9/2007
Sobre blog e ESSAPOAÉBOA (continuação)
Por exemplo, estive em Porto Alegre há algumas semanas para trabalhar pelo Projeto ESSAPOAÉBOA, recém inaugurado. Um conjunto de artistas gaúchos que trabalham numa exposição totalmente fora do circuito da Bienal do Mercosul que acontece por lá nos próximos meses. A Bienal não convidou nenhum artista gaúcho o que, a meu ver, é um erro absurdo, mas compreensível: o sistema das artes brasileiro (no caso, falo do especificamente gaúcho) é acostumado a servir ao estrangeiro. Tudo bem, quem se encantou com espelhos um dia nunca perderá de vista as miçangas. Isso muda aos poucos pelo menos com muita força desde Hélio Oiticica e Lígia Clarck e tantos outros que se internacionalizaram mostrando que eram brasileiros. Ou que ficaram aqui e mostraram que também temos o direito a vermo-nos a nós mesmos. Nenhum bairrismo, ao contrário. Nenhuma ofensa, ao contrário. Que o povo que organizou a Bienal é sem tato e sem noção, disso eu não tenho dúvida, mas esta é a nossa sorte. Vejam bem, em nenhum momento eu digo que deveriam convidar só os gaúchos. Seria ridículo dizer isso. No final foi até bom, só assim surgiu ESSAPOAÉBOA. Todos sabem que tais exposições significam também vaidade e, por isso, os donos do poder nas artes não podem esquecer de convidar representantes nacionais e nativos (!!!) para estas coisas todas. Mas é aí que a verdade como potencial da arte aparece: arte é o que está para além disso tudo. Há artistas que, trabalhando em busca de seu estilo e de sua obra, estão fora. ESSAPOAÉBOA é dissidência!!!E destas iniciativas é que surge “o que é arte” quando se fala em arte, algo que sempre tem potencial de reação e criação, de rebelião ou de ação, algo que está para além do sistema.
A arte também pode ser um projeto coletivo em nome de algo maior do que exigem egos que como buracos negros devoram tudo o que há ao seu redor. A experiência coletiva da arte é uma forma de bom poder, potência da vida, lucidez. Bacana é ver o site www.essapoaeboa.com.br.

3 comentários:

Paulo Ferreira disse...

E essa Marcia é ótima! Preocupada com o estilo, eleva o blog ao seu próprio estado: lúcida (isso hj é elogio!!?), sensível, com um texto gostoso. Me elevei. abs.

Isabel/Bahia disse...

Olá Márcia
Que bom que você ativou seu blog. A contribuição será grande para o nosso pobre povo brasileiro. Afinal, não é todo dia que temos uma escritora e filósofa fazendo comunicação inteligente via blog.
Beijos
Isabel/Bahia

Nina disse...

gosto de te ler